O Círculo de Ferro

O Círculo de Ferro

O Círculo de Ferro


O ator David Carradine se tornou mundialmente famoso ao estrelar a série Kung Fu na primeira metade da década de 70. Posteriormente Carradine participou de vários longas-metragens para cinema, entre os quais o muito conhecido Kill Bill, de Quentin Tarantino.

No entanto gostaria de comentar aqui um filme estrelado por Carradine que é menos conhecido, mas não menos importante: O Círculo de Ferro.

O Círculo de Ferro, que tem também como título A Flauta Silenciosa, foi um sonho não realizado de Bruce Lee — autor da história —, que desejou realizar um filme de artes marciais que expressasse a filosofia zen da qual era adepto.

A história é assim:

No começo, estamos diante de um rubro pôr-do-sol nas montanhas, e ali encontramos pela primeira vez o estranho peregrino (Carradine) que, tranqüilamente sentado numa rocha, toca uma comprida flauta de bambu. A envolvente música de abertura (trilha sonora de Bruce Smeaton), para flauta e orquestra, sublinha não apenas esta cena mais que pastoril, “espiritual”: mas também o lado zen do filme.

Súbito, a doce e melodiosa música da flauta é brutalmente cortada pelo som de um gongo e somos transportados para uma arena onde ocorre uma violenta cena de luta: trata-se de um torneio em que diversos lutadores disputam a oportunidade de enfrentar um famoso guerreiro — tido como imbatível — chamado Zetan.

Zetan, segundo a lenda, vive retirado numa ilha longínqua, onde é guardião de um certo livro que contém elementos de uma sabedoria antiga que permanece escondida do mundo. Esse livro — e essa sabedoria — é a meta daquele que desafiará seu guardião; muitos lutadores já haviam disputado, em torneios similares, a honra de defrontar-se com Zetan, porém, ou não chegavam ao fim da viagem, ou chegavam mas não voltavam — e o que era feito deles ninguém sabia.

O torneio continua até que, por fim, defrontam-se os finalistas Cord (Jeff Cooper) e Morthond (Anthony de Longis). Na ânsia de vencer, porém, Cord infringe as regras da luta, golpeando o adversário quando caído: é então desclassificado e a vitória concedida a Morthond.

Cord retira-se mas não desiste de seu intento de ser ele a enfrentar Zetan.

Pretende seguir Morthond quando este se puser a caminho, mas enquanto espera sentado na rua vê passar o peregrino, que transporta sua longa flauta de madeira e leva um guiso preso ao pé.

Quando Morthond se põe a caminho, Cord o segue. No caminho, porém, o desafiante de Zetan deverá enfrentar perigosas provas e Morthond sucumbe, decidindo-se Cord a tomar o seu lugar. Durante a jornada volta a encontrar-se com o peregrino, e se surpreende ao ver que ele é cego e, não obstante isso, ao vê-lo cercado por um grupo de salteadores, percebe que é também um lutador extremamente hábil que faz de sua flauta uma arma fatal, ao derrotar um por um seus atacantes. “Se as habilidades de Zetan forem maiores que as suas, não estou pronto para ele” diz ao peregrino, “com todo meu treino e minha visão eu não sobreviveria lutando contra você”, e pouco depois o perde de vista.

Seguindo em frente, Cord irá passar por diversas provas, e quando volta a encontrar-se com o peregrino percebe que será vantajoso tê-lo como mestre e se decide, como discípulo, a aprender com ele. Porém o estranho cego tem atitudes incompreensíveis (p. ex., destrói um barco que lhes fora cedido para atravessar um rio por um barqueiro muito pobre) e fala por meio de enigmas que lhe parecem vazios de significado, e acaba por concluir que ele nada tem a lhe ensinar. O peregrino apenas lhe responde: “Aprenda a ouvir o que não é falado”. Continua caminhando com ele, mas, por fim, quando o vê golpear com violência o rosto de um lindo e atrevido menino que lhe faltara com o respeito, interpela-o indignado acerca de tudo aquilo que não compreende, e é então que aprende sua primeira lição…

Cord por fim chega à região costeira que tinha por meta, e um barco aparece para conduzi-lo à ilha de Zetan, mas o que o espera é surpreendente.

No silencioso retiro da ilha ele encontra aqueles que haviam chegado ali antes dele e não retornado. Encontra-se também com Zetan (Christopher Lee) e lhe é concedida a oportunidade de abrir o famoso livro. “Você sobreviveu a várias provas assustadoras” lhe diz Zetan, “mas o que verá agora pode ser mais aterrador ainda”. Cord, porém, está decidido e abre o livro…

O filme chega ao fim quando Cord, outra vez fora da ilha, encontra-se ao pôr-do-sol com o peregrino nas montanhas e este, após se abraçarem, põe-lhe nas mãos sua flauta: agora é Cord quem toca a flauta enquanto o lutador cego ensaia passos de Kung-Fu e a noite cai lentamente.