A reforma ortográfica e o vocabulário da burrice

A reforma ortográfica e o vocabulário da burrice

Depois de vários anos de discussão acerca da reforma ortográfica da língua portuguesa (cuja finalidade, dentre outras, seria uma espécie de unificação da língua e também a facilitação no ensino e no aprendizado), pela qual se mobilizaram vários países que têm no português seu idioma oficial; e também depois de tal reforma ter sido ratificada por esses países, chegou por fim a vez do Brasil, que estabeleceu como prazo final para a reforma entrar em vigor o ano de 2012.

Segundo um artigo datado de 1990 que li há tempos, alguns dos países africanos de língua portuguesa que possuem um alto índice de analfabetismo ver-se-iam beneficiados pela reforma ortográfica, que contribuiria – e muito – para reduzir esse índice. Tudo isso, a meu ver, não passa de uma grande bobagem. Dizem os conhecedores que um chinês de cultura mediana domina cerca de dois mil caracteres (dentre os mais de vinte mil daquele idioma), o que não deixa de ser um número elevado de caracteres, se comparado com o nosso vocabulário e os demais sinais gráficos que se usam na nossa escrita. Creio que não é suprimindo o trema ou um acento diferencial que aqueles países irão solucionar o problema do analfabetismo, mas investindo dinheiro na construção de escolas, na preparação de professores e em material didático. O mesmo vale para o Brasil: se os professores fossem mais bem pagos, se os livros didáticos fossem melhores e mais baratos, se houvesse um empenho visando a valorização da língua, não haveria problemas com o aprendizado, pois enquanto uma criança chinesa tem de haver-se com centenas, senão milhares de caracteres, uma que fale o português tem de aprender, bem contados, apenas uns cinqüenta.

Em razão (também mas não só) do que, sou contra a reforma, e por isso os meus textos permanecerão redigidos (e em caso de publicação, publicados) segundo o Formulário Ortográfico de 12 de agosto de 1943 com as alterações aprovadas pela lei no 5.765 de 18 de dezembro de 1971.

A Academia Brasileira de Letras, que tanto se empenhou para implantar essa bobagem, melhor faria se através de sua representatividade buscasse incutir no povo brasileiro uma noção de valorização da nossa língua com a finalidade precípua de, se não extinguir, pelo menos diminuir a subserviência cultural à que nos vemos sujeitos. A maioria das pessoas hoje acha elegante inserir no riquíssimo vocabulário do nosso idioma estrangeirismos no mínimo ridículos, como se pronunciar em conversa tais palavras as faça passar ou por modernas ou por instruídas. Coitados, que tristeza!


Enfim, vamos dar uma olhada numa amostra daquilo que eu costumo chamar de “o vocabulário da burrice”:


COIFFEUR – o que foi que fizeram dos cabeleireiros? Onde eles estão?

CUSTOMIZAR – a palavra inglesa “custom”, cujo significado é costume, utiliza-se na informática com a noção de personalizar a interface de algum programa. Daí a surgir o hediondo “customizar” foi um passo… mal dado.

DESIGN/DESIGNER – produtos industrializados não possuem mais formas nem formato, possuem “design”, e os desenhistas há muito, sem ao certo saberem por quê, se viram convertidos em “designers”.

DELETAR – também utilizado na informática, apesar de feio aceita-se, se restrito apenas àquele jargão, embora sem dúvida o termo apagar seja muito melhor.

Diet – emagrecedor de inteligência: comidas dietéticas fazem bem, mas comidas “diet” emburrecem.

FASHION – hoje em dia tudo é “fashion”, até o papel higiênico deve ser. Muita gente nem sabe o que significa a palavra, mas a pronuncia como se fosse o supra-sumo do bom-gosto.

FOLDER – já não existem folhetos no Brasil, mas “folders”.

Halloween – importação cretina da não menos cretina cultura norte-americana: dia das bruxas. Agora, nas escolas, ocorrem sempre festa de “raloim”!… E pensar que nosso folclore é tão rico!…

KNOW-HOW – se você tiver experiência em alguma coisa, ninguém vai ligar. Já se tiver “norrau”…

Light – não existem mais alimentos leves, só “lights”. Cuidado para não terem um curto-circuito no estômago.

Look – ninguém mais tem aparência, tem “look”. Que coisa feia!

Mainstream – tem gente que diz que tem isso. Não sei o que é, mas deve ser pra lá de sofisticado. Só que fede…

PRINTAR – alguém é capaz de adivinhar de onde veio essa pérola? Também da informática, de “print”, que é imprimir. Sejam sinceros: imprimir não soa bem melhor?

Randomizar — do inglês random, que quer dizer fortuito, acaso, com a locução at random, que significa ao acaso. Daí surgiu a noção de aleatório, e que randomizar significaria algo como produzir um resultado aleatório. De qualquer forma, é feio de doer!

WORK-SHOP – medonho! É tão mais simples falar seminário.

Vale lembrar, porém, que não é apenas o uso desses estrangeirismos que denota a deformação lingüística de certa classe de pessoas. Lugares comuns como “a nível de”, “massagear o ego”, a gerundização “vamos estar enviando” e “o senhor vai estar recebendo” são claros indicativos de indigência verbal.

12/dez/2004

(O texto desta crônica, escrita antes que o Brasil ratificasse a nova reforma ortográfica, foi levemente modificado para coadunar-se à nova situação [29 ago 09].)