Breve introdução à ficção de Virgínia Woolf

Breve introdução à ficção de Virgínia Woolf

1) A viagem (Voyage Out)

Primeiro romance de Virgínia Woolf, publicado em 1915. Vinha sendo elaborado desde 1907, pelo menos fora cogitado nesse ano, tendo a autora trabalhado nele nos anos posteriores.

O enredo de A Viagem é simples: Raquel Vinrace, jovem rica e inexperiente de vinte e quatro anos, viaja com o pai, no navio deste, e em companhia de outras pessoas, inclusive da própria família; nessa viagem irá conhecer melhor sua tia Hellen, que em face da inexperiência de vida da sobrinha resolve completar-lhe a formação; Raquel, enquanto o pai segue viagem, hospeda-se em casa dessa tia, numa ilha na América do Sul, onde viverá pequenas aventuras e por fim encontrará o amor que, no entanto, não se realizará.

VW não era uma escritora iniciante, tendo já escrito diversos contos; e o romance, ao revelar uma escritora madura em sua técnica narrativa, também revela uma literatura que, embora vá passar por grandes transformações, manterá em sua grande parte uma certa unidade de estilo, que se caracteriza pela elaboração de personagens de contornos difusos, em muitos casos simples “manchas” no todo de uma composição pictórica, e uma técnica narrativa na qual prevalece a prosa poética.

Destaco dois trechos como exemplo.[1]

No primeiro, descreve-se uma tempestade em que o navio é agitado pelas ondas:


Mesmo na hora do chá, o assoalho erguia-se debaixo dos seus pés e lançava-se abaixo, e no jantar o navio parecia gemer e contorcer-se como se uma chibata estivesse descendo sobre ele. Esse navio, que fora um cavalo de flancos negros, em cujos quartos pierrôs poderiam ter dançado, tornou-se um potro solto nos campos. Os pratos deslizavam longe das facas, e o rosto de Mrs. Dalloway empalideceu por um segundo quando ela se servia e viu as batatas rolarem de um lado para outro.


Vemos aí a primeira aparição de Mrs. Dalloway na literatura de VW, que aparece em diversos contos e a quem a autora dedicaria um romance, como veremos a seguir.

O segundo exemplo descreve quando os passageiros se dirigem a terra num pequeno barco:


Movendo-se muito lentamente e subindo incrivelmente alto a cada onda, o barquinho agora se aproximava de uma meia-lua branca de areia. Atrás, ficava um fundo vale verde, com nítidas colinas de cada lado. Na encosta da colina, do lado direito, aninhavam-se casas brancas com telhados castanhos, como aves marinhas em seus ninhos, e a intervalos a colina era cruzada por ciprestes como grades pretas. Montanhas com encostas coradas de vermelho, mas topos calvos, erguiam-se como pináculos escondendo outro pináculo atrás.

2)     Noite e Dia (Night and Day)

Publicado em 21 de outubro de 1919, este é o segundo romance da escritora. Como em 27 de março daquele ano VW faz referência ao livro em seu diário, afirmando que Leonard (seu marido) lera-o nos dois últimos dias, presumo que tenha sido iniciado no ano anterior.

Trata-se, segundo a crítica, um romance ainda segundo os moldes clássicos, e mesmo, segundo minha opinião, mais conservador do que A Viagem, pois neste a narrativa é mais diluída e fluida que em Noite e Dia (ainda que ambos se assemelhem quanto ao aspecto da construção tradicional do romance). Isto porém não faz deste um romance menos importante, e a bem da verdade considero uma das obras mais expressivas da romancista, seja pela linguagem mais vigorosa que em A Viagem, seja pela história, cujo tema central são os conflitos que envolvem a nobre e altiva Katherine Hilbery e o intelectual Ralph Denhan num denso caso amoroso.

O crítico Winifred Holtby comentou acerca de Noite e Dia: “[…] Romance repleto de beleza e gravidade, nobreza de tema e alta elegância”, enquanto The Spectator assim se pronunciou por ocasião de seu lançamento: “Nenhum outro escritor consegue criar a ilusão de realidade com maior segurança e com tão completo disfarce de seus artifícios ficcionais, subjacentes a um estilo perfeito que é ao mesmo tempo sólido e etéreo”.

Vejo em Noite e Dia um outro fator de mérito: ele não prepara o terreno ao leitor para o que a escritora virá a produzir, e assim sendo é uma obra, além de bela, singular em toda sua ficção.

3)     O quarto de Jacob (Jacob’s Room)

Publicado na segunda metade de 1922, já se encontra registro acerca da idéia desse romance no diário de VW de 1920.

Não se trata de uma narrativa inovadora apenas em vista de A Viagem e de Noite e Dia, seus dois primeiros romances — que, como foi dito, preservam a estrutura tradicional do romance. É uma obra que representa um marco na literatura do século XX por sua concepção, independentemente do que a autora produzira antes: deparamos aqui com uma narrativa inteiramente fragmentária, que conta a história do jovem Jacob, desde sua infância até sair de casa, viajar e distanciar-se da família.

Essa narrativa fragmentária enfatiza a solidão do protagonista, e a incerteza sobre seu destino — e principalmente a cena final na qual a mãe segura os sapatos que haviam pertencido a Jacob ­— faz presumir a morte prematura do herói.

4)     Mrs. Dalloway

Publicado em 1925, foi escrito entre março e outubro do ano anterior. Em seu diário VW refere (17 de outubro de 1924) que “fiquei satisfeita por livrar-me do romance. […] Mas de certo modo este livro é uma proeza; terminado sem interrupções por doença, o que é uma exceção; e escrito realmente em um ano […]”.

Neste encontramos a trama aparentemente mais simples de VW, porém de grande densidade dramática: a história transcorre-se num único dia, em que, pela manhã, a Sra Dalloway — aquela mesma que aparece bem mais jovem em A Viagem — decide sair para comprar flores.

Segue-se a descrição de suas peripécias durante o dia, até a chegada da noite, em que Clarissa Dalloway deverá figurar como anfitriã numa festa que terá lugar em sua casa — tudo isso sem que a autora fuja ao lirismo de suas descrições e a elaboração minuciosa das personagens, de resto muito ricas e vivas na trama — o no drama — que se desenrola.

O trecho a seguir[2] descreve o momento em que Clarissa passa defronte ao Palácio de Buckinghan:

Enquanto isso, formara-se um pequeno grupo ante os portões do Palácio de Buckinghan. Sem pressa, mas confiantes, todos eles gente pobre ali esperavam; olhavam para o palácio, com sua bandeira flutuante; para a estátua de Vitória, maciça em seu terrapleno; admiravam as cascatas e os gerânios; designavam os autos, primeiro este, depois aquele; desperdiçavam emoções, inutilmente, sobre gente comum que rodava; suspendiam o entusiasmo enquanto passavam este e aquele auto; e durante todo o tempo o rumor se acumulava em suas veias o lhe fazia vibrar os nervos, ao pensamento da majestade que os olharia; da rainha inclinando-se; do príncipe saudando; ao pensamento da vida celestial que Deus outorga aos reis […].

5)     Passeio ao farol (To the Lighthouse)

VW começou a escrever este romance ainda em 1925, ano da publicação de Mrs. Dalloway, tendo sido publicado em 1927.

Em Passeio ao Farol, cuja ação é pouca, prevalece o monólogo interior na maneira pela qual as personagens vão sendo conhecidas pelo leitor — mas de uma forma completamente diversa da que vamos encontrar em As Ondas: aqui as personagens estão, por assim dizer, mais próximas e são mais nítidas, assim como a ação é mais direta.

A ação se passa em dois dias na casa de praia da família Ramsay: no primeiro dia (1ª Parte: A janela), a família planeja um passeio a um farol próximo, que é impedido pela chuva; no segundo dia, vários anos depois (3ª parte, O Farol), de volta à casa de praia, o passeio se realiza, mas tudo está mudado. Entre a primeira e a terceira, VW escreveu O Tempo Passa, segunda parte do romance, com menos de vinte páginas mas um dos mais belos momentos da literatura de todos os tempos: nessas poucas páginas a escritora descreve a passagem do tempo e o destino dos personagens de uma maneira que nem mesmo ela conseguirá repetir (apesar de As Ondas).

Segue-se um trecho dessa parte do romance:[3]


Mas o que é uma noite, afinal? Um curto intervalo de tempo, principalmente quando a escuridão se desvanece tão cedo, e tão rápido um galo canta, um pássaro chilreia ou o verde desmaiado se aviva no seio da onda, como uma folha na primavera. Mas uma noite se sucede à outra. O inverno encerra-as em grande quantidade, e as distribui imparcialmente, equanimemente, com seus dedos infatigáveis. Elas se prolongam, elas escurecem. Algumas guardam nas alturas límpidos planetas — discos de claridade. As folhas arruinadas de outono adquirem o esplendor de bandeiras em frangalhos que rebrilham na obscuridade dos porões frios de uma catedral, onde letras douradas, escritas em páginas de mármore, descrevem a morte em batalhas e como os ossos se tornam esbranquiçados e queimam longe nas praias indianas.

6)     Orlando (Orlando, A Biograpphy)

Uma característica da obra de VW é sua abordagem pessoal da passagem do tempo: observa-se essa característica principalmente em O quarto de Jacob, Passeio ao Farol, As Ondas e Os anos, nos quais longo tempo transcorre entre o começo e o fim de cada romance.

Porém, em nenhum de seus livros o tema “tempo” é abordado de forma tão singular como em Orlando, publicado em 1928. O último capítulo do romance foi escrito, segundo a autora “com muita negligência” em fevereiro de 1928, tendo sido a obra iniciada no ano anterior.

Orlando conta a história da personagem-título, que no início é um adolescente de dezesseis anos, poeta, que vive na vasta propriedade da família em fins do século XVI. O que se segue é a saga das aventuras e dos amores de Orlando atravessando não apenas as décadas mas o séculos, até que, a certa altura da história, miraculosamente Orlando vê-se transformado de homem em mulher — sem sobressaltos, com naturalidade, e assim assume sua nova condição. Ao final do romance vamos encontrar Orlando no ano de 1928, uma bela mulher na pujança de seus vinte e cinco anos de idade, incólume — exceto pela mudança de sexo — após atravessar quase três séculos de história!

Este é um romance singular até mesmo na literatura, sendo talvez um dos mais poéticos de VW, como no trecho a seguir do primeiro capítulo:[4]


Os pais de Orlando tinham cavalgado por campos de asfódelos e campos de pedra e campos regados por estranhos rios, e tinham decepado, de muitos ombros, muitas cabeças, de muitas cores, e tinham-nas trazido para dependurar nas vigas. Outro tanto jurava Orlando fazer. Como porém contava só dezesseis anos, e era muito criança para cavalgar com eles pela África ou pela França, fugia de sua mãe e dos pavões do jardim, e ia para o sótão atacar e atravessar e esfatiar o ar com sua espada. Às vezes, cortava a corda, e a cabeça batia com força no chão, e tinha de pendurá-la de novo, amarrando-a com certo cavalheirismo, quase fora de seu alcance, de modo que o inimigo triunfante lhe arreganhava os dentes entre os lábios contraídos e negros.

7)     As Ondas (The Waves)

Foi por certo o livro que mais trabalho e ansiedades propiciou à escritora. Iniciado por volta de 10 de setembro de 1929 — embora já haja referência a essa idéia no seu diário de 1927 —, só deu por terminado (após corrigir o texto datilografado da segunda versão) em 17 de julho de 1931, ano de sua publicação.

Diz ela em seu diário em 16 de fevereiro de 1930: “Continuo a conceber a cena de Hampton Court em The Waves — Deus, será que esse livro vai existir?!”.

Em 9 de abril: “Ataquei ontem o que pode ser a última etapa. Do mesmo modo que todas as partes do livro, esta avança aos trancos. Nunca chego aonde quero (…).”

E em 29 de abril: “Sim, foi o maior esforço mental que já vi; decerto nas últimas páginas; acho que não ficaram tão canhestras (…).”

Por fim, em 17 de julho de 1931, após finalizar o livro, revela sua apreensão quanto à opinião de seu marido, Leonard: “(…) Vou ficar nervosa ouvindo o que L. terá para dizer quando entrar, digamos amanhã à noite ou na manhã de domingo, em minha sala na casa do jardim, trazendo os originais, e sentar-se e começar ‘Bem!’ ”.

Porém, dois dias mais tarde VW registra em seu diário a opinião do marido: “É uma obra prima. É o melhor livro seu.”

Penso que este é o romance mais ousado de VW, no qual ela desconstrói inteiramente a forma tradicional de escrita reconstruindo-a de uma maneira tão ou mais drástica até do que Willian Faulkner em O Som e a Fúria: o romance é narrado ao mesmo tempo da terceira e na primeira pessoa, mas o mais certo seria dizer que o narrador (terceira pessoa) é um narrador distante que se limita a breves e sutis interferências para descrever o alvorecer de um dia, seu transcurso até o cair da noite, sem qualquer alusão às personagens, sendo que esse transcurso de um dia simboliza o transcurso da vida das personagens. Sobressai-se, então, a narrativa na primeira pessoa — mas não é correto falar, em As Ondas, numa “primeira pessoa”, senão em seis primeiras pessoas, pois são seis personagem que monologam consigo mesm[5]as, nunca diretamente entre si, apenas desses monólogos inferindo-se a relação entre elas.

O texto é pura poesia, como se pode ver desse trecho extraído do início do livro, na voz do narrador:


A luz incidiu sobre as árvores do jardim, e suas folhas, tornadas transparentes, iluminaram-se uma depois da outra. Um pássaro trinou no alto; houve uma pausa; outro pássaro trinou mais abaixo. O Sol aguçou os contornos da casa e pousou como a ponta de um leque sobre uma cortina branca, deixando uma impressão digital azul sob as folhas próximas à janela do quarto de dormir. A cortina moveu-se de leve, mas dentro da casa tudo era penumbroso e sem substância. Fora, os pássaros cantavam sua vazia melodia.


Este outro trecho é extraído da fala (monólogo interior) de uma das personagens:


— Num mundo que contém em si o momento presente — disse Neville —, por que fazer discriminações? Nada deveria ser nomeado, a não ser que, agindo assim, estejamos transformando alguma coisa. Deixemos que exista este banco, esta beleza e eu, por um instante, embebido em prazer. Arde o sol. Vejo o rio. Vejo árvores manchadas e crestadas pelo sol do outono. Barcos flutuam no verde, no vermelho. Longe tange-se um sino, mas não é pelos mortos.

8)     Flush, Memórias de um Cão (Flush, A Biograpphy)

As Ondas, como vimos, foi uma obra que cansou VW, que, para divertir-se e relaxar começou a ler as cartas dos poetas Robert Browning (1812-89) e Elizabeth Browning (1806-61), inicialmente amigos e depois casados. Flush, da raça cocker-spaniel, era o cãozinho de estimação de Elizabeth, e é mencionado numerosas vezes em sua correspondência.

VW, assumindo na narrativa o ponto de vista de Flush, relata a correspondência inicial, a subseqüente amizade e posterior fuga e casamento entre Robert e Elizabeth, bem como diversas aventuras vividas pelo cãozinho (como, por exemplo, uma ocasião em que ele foi raptado nas ruas por pessoas que exigiam resgate de animais). Datada de 1933 (data de publicação), trata-se de uma pequena novela, leve e despretensiosa que, no entanto, revela uma outra face dessa escritora tão visceral: a capacidade de elaborar uma narrativa bem-humorada e de leitura extremamente simples, mas também cheia de sutilezas e poesia.

9)     Os anos (The Years)

Parece ter sido publicado em 1937, mas em 29 de dezembro de 1935 VW escreve em seu diário: “Acabei mesmo de escrever as últimas palavras de The Years[…]”. No entanto em 17 de abril de 1934 ela diz em seu diário: “Tão exausta estou depois de ontem que não consigo […] fazer um esboço dos últimos capítulos de Here & Now, e em 30 de setembro: “As últimas palavras do livro inominado foram escritas há 10 minutos”. Ocorre que Here & Now é um dos dez títulos diferentes que Os Anos teve, antes do definitivo. Com isso vemos que VW trabalhou nele desde 1934, e a referência datada de 29/11/35 indica que ela deveria estar fazendo revisões e modificações no romance.

Dele pode ser dito que VW usou as cores mais desmaiadas e fluidas de toda sua literatura. Tudo ali é translúcido, da leveza de uma pluma, o drama existe mas permanece subjacente: trata-se da história da família Pargiter ao longo de vários — inicia-se em 1880 e vai até, na penúltima parte, 1918. Na última parte, intitulada O dia de hoje, não se sabe exatamente em que data se encontra a narrativa, mas novamente percebe-se a passagem do tempo.

As partes — ou capítulos — não levam título, apenas a data, e aquela correspondente ao ano de 1918, curtíssima (apenas três páginas), VW nos traz a velha criada Crosby caminhando pela rua através da névoa, numa narrativa cheia de lirismo:[6]


Um véu de bruma cobria o céu de novembro. Era um véu tantas vezes dobrado e de malha tão fina que parecia denso e espesso. Não chovia; aqui e ali, porém, a névoa se condensava úmida na superfície e tornava as calçadas gordurosas. Aqui e ali, numa folha da relva ou das sebes, uma gota pendia imóvel. O ar era calmo. Não ventava. E os sons vinham coados pelo véu: balido de carneiros, crocitar de gralhas. Tudo amortecido. O rumor do tráfego fundia-se num só rosnado unido e surdo. De vez em quando, como se uma porta se tivesse aberto e fechado, ou como se o véu se tivesse partido por um instante e volta á posição anterior, o som crescia atroador para desvanecer-se em seguida.

10)           Entre os Atos (Between the Acts)

Último romance, concluído em 26 de fevereiro (quarta-feira) de 1941, pela manhã, como registra a autora em seu diário nesse mesmo dia. Foi publicado postumamente pois em março daquele mesmo ano VW suicida-se, afogando-se num rio que corria nos fundos de sua propriedade.

De Entre os Atos pode-se dizer que praticamente não há ação: a cena transcorre num único dia, na propriedade dos Oliver, onde se encenará uma peça pelos habitantes da aldeia, cuja renda destina-se à instalação de luz elétrica na igreja; como o título indica, a ação se dá nos entreatos, sugerindo-se uma aproximação amorosa entre Isa e um estranho “de terno cinza”, bem como entre Giles (marido de Isa) e a Srª. Manresa, porém esses envolvimentos, ao mesmo tempo que revelam um casamento em crise, não se concretizam, e no fim conclui-se que ambos, Isa e Giles, ainda podem se salvar.

A prosa poética é a tônica do romance, e como exemplo destaco alguns trechos. O primeiro refere-se a uma das pessoas da platéia, uma velha senhora numa cadeira de rodas:[7]

Depois, a grande dama na cadeira de rodas, a dama cujo casamento com o nobre local fizera obliterar-se no nome insignificante do marido o nome dela, que fora grande outrora, quando havia sarças e urzes onde atualmente se erguia a igreja — ela, tão desgraçada agora, que até seu corpo, deformado pela artrite, parecia um estranho animal noturno, quase extinto —, mesmo a grande dama bateu palmas e riu alto, com o súbito riso de um gaio assustado.


O segundo, já no final do livro, após o fim da peça e todos terem ido embora:


Na baixada, em Pointz Hall, entre as árvores, arrumava-se a mesa na sala de jantar. Candish tirara as migalhas com sua escova curva; apanhara as pétalas e por fim deixara a família sozinha para que se comesse a sobremesa. A peça terminara, os estranhos haviam partido, estavam sozinhos agora — a família. (…) Nunca fechavam as cortinas senão quando ficava escuro demais, nem fechavam as janelas enquanto não estava frio demais. Por que esconder o dia antes que ele terminasse? As flores ainda apareciam iluminadas; os pássaros chilreavam. Muitas vezes podia-se ver mais à noite, quando não há interrupções, quando não se precisava encomendar peixe ou atender ao telefone. A Sra. Swithin parou junto do grande quadro de Veneza — da escola de Canaletto. Possivelmente havia uma pequena figura no fundo da gôndola… Uma mulher com véus, ou um homem?


Se há uma crítica a ser feita ao livro, é que VW escreveu também cenas inteiras da peça encenada pelos atores da aldeia, quando teria sido preferível que a ação fosse apenas insinuada.

Segundo Leonard Woolf, marido de VW, embora o manuscrito do livro estivesse completo, ela não chegou a proceder a uma revisão final no texto, e portanto não se pode saber se teria em mente alterações significativas a fazer. É opinião de LW que a escritora fizesse apenas pequenas correções antes de entregar as provas finais para publicação.

11)           A Casa Assombrada (A Hanted House and Other Short Stories)

Em 1943 foi publicado pela Hogarth Press o volume A Casa Assombrada, organizado por Leonard Woolf, que reuniu dezesseis contos de VW. Em 1985 foi publicado The Complete Shorter Fiction of Virginia Woolf (Contos Completos, Cosac Nayf - 2005), também pela Hogarth Press, que reuniu todos os contos de VW (num total de 46).

Em seus contos, alguns muito curtos, VW mantém a mesma atitude em relação à linguagem e ao conteúdo que em romances como Passeio ao Farol e As Ondas, ou seja, enfatizando o monólogo interior, a ação reduzida, o texto poético, etc. Alguns contos, em Contos Completos, se destacam por sua diferença em relação ao resto, como “O Diário de mistress Joan Martyn”, uma narrativa bem definida com bastante ação; ou “Cigana, a Vira-Lata”, parece que o segundo texto de VW sobre cães, onde a personagem central é a cadelinha Cigana, um conto também com bastante ação; outros se destacam pela beleza poética do texto, como “A Casa Assombrada”, um conto curto que dá título ao livro de 1943; ou “Ode escrita parcialmente em prosa ao ver o nome de Cutbush na fachada de um açougue em Pentonville”; e ainda outros apresentam retalhos de um agudo perfil psicológico, como em “O Vestido Novo”, “A Apresentação” e “O Homem que Amava sua Espécie”.


Desejo que esta breve introdução à ficção de Virgínia Woolf sirva não apenas para consulta, mas para estimular os apreciadores da boa literatura a conhecer a obra dessa escritora fascinante, cuja personalidade marcante atravessou o século XX e, decerto, avançará pelo século XXI sempre atual.


[1] Tradução de Lya Luft.

[2] Tradução de Mário Quintana.

[3] Tradução de Luíza Lobo.

[4] Tradução de Cecília Meireles.

[5] Tradução de Lya Luft.

[6] Tradução de Raul de Sá Barbosa.

[7] Tradução de Lya Luft.


Breve introdução à ficção de Virgínia Woolf

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